Meio-dia e o Centro do Rio de Janeiro parecia pegar fogo.
O cheiro de mijo ficou mais forte depois que o calor passou a ferver as poças de urina espalhadas pela cidade.
Os executivos atravessavam a passos largos a rua, entrando imediatamente em seus carros com ar condicionado, e os vendedores de picolé ganhavam uma boa grana.
Eu tentava pensar que o calor era psicológico, e me imaginava no polo norte enquanto andava o mais rápido que podia até meu trabalho.
Não almocei direito na hora do meu intervalo, e aquele deveria ser o dia mais quente da história.
Trabalhava como caixa numa loja de discos que para a minha felicidade estava com um novo ar condicionado.
Entrei na loja e em poucos minutos meu suor começou secar e me senti a salvo depois de encarar o sol de quase 50ºC lá de fora.
A música ambiente era um hit bem famoso de uma mulher que não-sei-como vendeu muitos cds e a batida era enjoada. Talvez eu devesse mudar e colocar algum disco antigo, algo bom.
Andei até a prateleira dos anos 80 quando uma garota de cabelo azul entrou na loja, dirigindo-se rapidamente até a sessão de rock alternativo.
Eu voltei ao caixa e fiquei seguindo-a com os olhos.
Ela era bem bonita e parecia indecisa com relação a qual disco levar.
Eu nem havia notado que a música anterior tinha chegado ao fim, e eu tinha de escolher outra, porque não é normal uma loja de discos não tocar discos. Mas eu não tive tempo, pois a garota chegou ao balcão com um sorriso enorme.
- Jet? - eu soltei uma breve risada, como se entendesse muito de música.
- Sim - ela fechou o rosto - há algum problema nisso?
- Não, me desculpa - eu me concentrei em pegar o dinheiro e colocar o disco numa sacola de plástico - aqui está o seu troco, tenha uma boa tarde.
Ela então saiu da loja e foi embora.
Eu pensei que a garota nunca mais fosse aparecer, mas na semana seguinte ela foi até a loja e escolheu um disco do The Vines.
- Não vai rir? - ela perguntou quando estava quase saindo da loja.
- Não - eu respondi constrangido.
- Que bom, porque não era eu quem estava na sessão de música brega - sorriu e foi embora.
“Música brega?!”, eu pensei, olhando na direção de onde eu estava dias antes quando queria ficar na frente do ar condicionado. E notei que acidentalmente eu segurava um disco do Reginaldo Rossi.